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A POESIA DO ENCONTRO - II
Entrevistado: ELISA LUCINDA





Como foi o encontro com Rubem Alves e a experiência de fazer esse livro com ele?
Elisa Lucinda: Foi uma pororoca, um encontro forte do rio com o mar. Não sei dizer quem é quem, acho que alternamos os papéis durante a deliciosa conversa. Foi uma paixão mútua, uma aula de vida para mim. Rubem é um homem muito emocionante, com muito conhecimento, de modo que cada idéia dele vem iluminada por um poema, esclarecida por uma filosofia inteligente, profunda e sempre amorosa. Então a gente foi descobrindo, sem ter tempo de pensar, o quanto a poesia unia nossas vidas, o quanto ela é fundamental na nossa formação, na escalada íngreme do autoconhecimento, e por isso ela podia naquele momento fazer o papel de protagonista da tarde. A poesia foi a estrela dessa tarde. Rubem Alves é professor de vida, e é uma sorte para nós que ele seja brasileiro, e uma sorte para mim ter a honra de publicar o livro dessa conversa. Tratava-se mesmo de um encontro de águas, mas a carne dessas águas foi tecida em cardumes de versos.

No prefácio do livro, Gilberto Dimenstein relata o quanto ficou encantado e emocionado com a conversa entre você e o Rubem, e que isso o levou a pensar em como se desperdiça tempo com o ensino da língua portuguesa aos alunos das escolas. Você acha que se os alunos tomassem gosto pela leitura, aprendessem o uso da vírgula (como o Gilberto cita) pela poesia, por exemplo, o aprendizado seria mais efetivo?
Elisa Lucinda: Não tenho nenhuma dúvida disso, estou segura de que há um potencial imagético e cinematográfico de forte impacto dentro da literatura. Há poemas, como Rubem diz, que são verdadeiras pinturas; o sentido da palavra faz a tela para gente. E por que a imagem não fica parada sempre? Por causa do verbo. O verbo move as coisas, é o senhor da ação. Sem ele não temos nada, temos um quadro estático; o verbo é quem conta a história. O verbo dá o start de Telecine Action. Agora a péssima notícia é que a escola ainda não entendeu a aventura que a literatura é. É a possibilidade de se viajar o mundo, fazer papel de mocinho e bandido sem correr risco nenhum e num ótimo preço, ou seja, de graça. Na verdade minha conversa sobre verbo faz parte de uma aula de português; quando essas aulas são dadas sem imagem, viram a aula da língua morta. Digo que sem afeto não há memória, não há aprendizado, não há nada. Com a poesia pode-se dar aula de tudo. Eu quero fazer aqui uma ressalva e dar meus sinceros parabéns aos muito criativos professores que lutam em suas escolas, quase sempre solitariamente, para que o ensino seja mais inventivo, mais prazeroso, mais emocionado. Esses são uma exceção à regra.

Quais os assuntos mais marcantes discutidos por você e pelo Rubem ao prepararem a obra?
Elisa Lucinda: Nós não preparamos a obra, fomos nos encontrar numa tarde e a obra estava lá nos esperando dentro da tarde. Por isso "A poesia do encontro". A viagem que o livro percorre nos revela desde a infância, e ficou claro que, mesmo com a diversidade de nossos trajetos, as individualidades que poderiam nos separar, seja por geração ou por formação acadêmica, mais nos uniram. Mais do que claro, ficou iluminado para nós que aquela comunhão se deu e virou esse livro porque somos colegas da sala de aula da vida olhando, fascinados, para os olhos da professora poesia. Filhos da mesma mestra, é o que eu acho que somos.

Qual é a importância da poesia em sua vida?
Elisa Lucinda: A poesia me educou, foi minha segunda mãe; me deu repertório, agilidade na memória, segurança no discurso. Aprendi a me escutar, a ver as pontuações como sinalizações de um caminho de comunicação. O que são os pontos, as vírgulas, as interrogações, senão os sinais desse incessante e caudaloso trânsito? Escrevesse eu um livro de mil páginas para responder essa sua pergunta de qual o papel da poesia em minha vida, e ainda assim seria nada. Reunisse eu em buquês de constelações para oferecer à Dona Poesia, ainda seria eu devedora, diante dos sóis de esclarecimentos que essa dama me ofertou.

E para as pessoas? Qual deveria ser essa importância?
Elisa Lucinda: Auto-ajuda. Não tenho pudores para dizer essa palavra. Mas é tão vasto o efeito da poesia que ela foi e será sempre uma literatura de auto-ajuda. Faz parte dos primeiros socorros de uma alma. Considero um perigo, uma irresponsabilidade, não ter poesia dentro de um lar, como cotidianidade, principalmente com criança em casa. Se a poesia for compreendida, pode atuar na sua força de ser popular e esclarecedora de todos os seres. Até dos analfabetos, porque ela alfabetiza também. Ela faz tudo. Criei meu filho com verso. Toda vez que vejo a vistosa lavoura de beleza e de bondade que esse menino é, penso: a poesia foi a melhor babá que esse menino teve.
Adoro o final do "Credo", um poema meu:
"A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria, e bíblia dos que como eu, crêem na eternidade do verbo, na ressurreição da tarde e na vida bela. Amém!" (do livro A fúria da beleza - Record, 2006)

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