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BATE-PAPO COM RUBEM ALVES
Entrevistado: RUBEM ALVES





Um bate-papo com Rubem Alves deixa sempre um gostinho de "quero mais". Autor de numerosos livros, Rubem lançou em 2003 mais um título pela Papirus Editora - Quando eu era menino ¿ com memórias de sua infância, acompanhadas de ilustrações de Paulo Branco. Nessa conversa informal e descontraída, o autor fala sobre a sua obra, e outras que estão a caminho

Educador, teólogo, psicanalista, palestrante, escritor, pai, avô... quem é Rubem Alves hoje?
Rubem:
Tenho uma teoria sobre a alma... E quem me ensinou foi um demônio... Está num texto do Novo Testamento. Jesus vai expulsar um demônio e lhe pergunta: Qual é o seu nome? Essa pergunta tem um sentido psicanalítico: os demônios, essas potências sinistras que habitam a alma, perdem o seu poder quando o seu nome é pronunciado. Pois o demônio, espertalhão, respondeu: "Meu nome é legião, porque somos muitos...". É isso aí. A alma é um albergue onde moram muitos hóspedes, muitas versões diferentes de mim mesmo. Há um poeta, um místico, um palhaço, um pai, um educador, um cafajeste, um Hulk, um sargento, um depressivo, uma criança... Fernando Pessoa viveu como nenhum outro essa multiplicidade de personagens. Claro, o albergue tem um administrador geral que cuida para que os hóspedes indesejáveis fiquem presos nas suas celas. Vez por outra, entretanto, um deles escapa... Pois é... Quem é Rubem Alves? Sou muitos. Mas com o tempo, com a velhice, os mais suaves ficam mais tempo do lado de fora. O Rubem amante da natureza, o escritor, o menino, o educador. Jovem, eu tinha muitas certezas religiosas. E era intransigente. Em outros tempos acho que poderia ter sido um inquisidor... Agora abandonei minhas certezas. Quero é viver intensamente, fazendo as coisas de que gosto.

A publicação do livro Quando eu era menino vem marcar seus 70 anos. Como surgiu a idéia?
Rubem:
A idéia apareceu assim: comecei a lembrar-me de experiências de menino pobre, na roça. E eram memórias tão gostosas! Fiquei com pena de que não pudesse comunicá-las às minhas netas. Então, resolvi levá-las a um passeio na minha "máquina do tempo". Mas fui surpreendido: quem mais se ligou ao passado não foram as crianças. Foram os velhos. Porque eles tinham tido experiências de infância semelhantes às minhas.

Como foram escolhidas as epígrafes dos textos? Você acompanhou de perto o trabalho desenvolvido por Paulo Branco?
Rubem:
Há muito que coleciono pensamentos sobre as crianças. Fernando Pessoa, Nietzsche, Jesus Cristo, Tao-Te-Ching, Bachelard, Adélia Prado... Foi só ler os meus arquivos e escolher... Não, não acompanhei o trabalho do Paulo Branco embora tivéssemos conversado sobre as imagens. O Paulo queria me fazer uma surpresa. E fez! Suas ilustrações são lindas. Paulo Branco é um artista extraordinário.

Quantas obras já publicou? Quais os seus próximos títulos?
Rubem:
Não sei... Precisaria contar. Mas já escrevi mais de 30 livros para crianças e uns 35 para adultos. Próximos títulos? Tenho estado a reescrever versões novas para estórias antigas. Já reescrevi a estória do Barbazul, da Cinderela, do Chapeuzinho Vermelho (Caindo na real: Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o tempo atual, Papirus, 2004). Tenho estado ruminando a Branca de Neve. Um livro com textos ecológicos (A música da natureza, Papirus, 2004). Causos de Minas. E um outro, uma grande brincadeira, "Conversas com o demônio"...

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