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QUEM BRINCA APRENDE?
Entrevistado: PAULO SÉRGIO EMERIQUE




"O brincar permite assumir a contradição humana, conviver com ela, exprimindo as emoções ambivalentes, aprendendo com os sentimentos, sem recalcá-los", explica Paulo Sérgio Emerique em seu livro Brincaprende.
Teólogo, pedagogo, psicanalista, doutor em Psicologia pela USP, professor universitário e diretor de pré-escola, Emerique há muito vem estudando o jogo e a brincadeira em todas as suas manifestações.

Como surgiu o seu interesse pelo aspecto lúdico da educação?
Paulo:
Minha motivação para o lúdico começou na desmotivação (olha aí a ambivalência, conceito fundamental para a psicanálise) com o ensino tradicional, quando dar aula expositiva, passar um certo conteúdo, colocar-me no lugar de um detentor do conhecimento diante de supostas ignorâncias foi me incomodando cada vez mais. Desejei então comprometer mais o aluno nesse processo que chamo de ensinagem, questionando as posturas que fomos adquirindo na sala de aula: um professor que usa da palavra (e, portanto, do poder) com exclusividade, e um aluno que ouve e depois deve repetir, às vezes com as mesmas palavras do professor, o que ouviu.

Brincaprende é o seu primeiro livro? O que o motivou a escrevê-lo?
Paulo:
Sim, é o meu primeiro livro. Ele nasceu de um projeto de pesquisa chamado JOGAPRENDE, transformado em curso, com o mesmo nome, que desenvolvo há 10 anos. Eu utilizava várias estratégias e textos no curso, nas palestras em escolas e na assessoria a secretarias de educação, mas faltava um guia, um livro-texto, e ele é o Brincaprende.

E o segundo livro, já está a caminho?
Paulo:
Estou preparando meu segundo livro com base em outro curso que dou, chamado JOGANÁLISE, numa ponte entre a psicologia do jogo e a psicanálise.
Desejei, com o livro, socializar esse convite a uma postura mais "brincante", mais prazerosa. Então, o livro é uma dica: "Experimente". É jogar-se no jogo! E jogar é uma forma de inclusão. Não é esse o desafio maior em nosso Brasil? Criar, inventar regras de jogo social e democrático em que ninguém fique excluído!? Jogo duro esse, não é?

Qual o sentido do brincar na psicanálise?
Paulo:
O brincar, para a psicanálise, é a forma de dizer mais autêntica e transparente da criança. Equivale aos sonhos como expressão do desejo, por isso, uma via de mão dupla para a educação, que pode percorrê-la nos dois sentidos, indo e vindo por ela.

Que tal deixar um recado para pais e professores?
Paulo:
O livro é o meu recado para pais e professores. Em poucas palavras, expressa meu desejo e meu convite para que o educador possa se permitir o imaginário, reencontrar com a criança que vive em nós, ainda que meio esquecida (sem a visão ingênua da infância feliz!), mas revendo e reelaborando as "verdades" que nos foram transmitidas por uma educação dicotômica, moralista, que ditava de modo categórico o certo e o errado. No entanto, hoje a gente percebe que ela não deu conta do nosso desejo, da nossa curiosidade, da nossa luta pela construção compartilhada de uma escola, de uma família e de instituições mais democráticas, mais participativas, mais envolventes, em que cada um de nós se veja mais responsável pelo jogo da vida.

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