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PAISAGEM VISTA DO TREM
Entrevistado: ANTONIO CALLONI





Desde quando você escreve poesia? E por quais razões?
Calloni: Quando tinha 13 anos, fiz uma viagem arrebatadora à Itália com meus pais. Na volta escrevi um poema em italiano em homenagem à vila onde meu pai nasceu, Ponte San Pietro. Lembro bem que queria dizer que o povo da vila era ignorante sem ser agressivo e usando a própria palavra "ignorante". Organizei poeticamente as imagens, as palavras, as emoções, os sabores, os gritos, as cantorias, as massas, as lágrimas, as gargalhadas, e, intuitivamente, é claro, consegui. Fiquei muito feliz quando meu pai e minha mãe leram o poema e choraram como bons italianos. Depois de um tempo, meu pai foi mais preciso: "Você escreveu ignorante e ficou bom". Chorei como bom italiano. Deve ter alguma razão biológica para a necessidade de escrever poesia. Quando eu entorto um fato, uma imagem, um sentimento, um fragmento através da poesia, me lembro de quando eu era criança e esmagava pintinhos na granja do meu pai só para ver o que eles tinham por dentro. Como é que eles funcionavam. Escrever poesia talvez seja uma tentativa, às vezes até mais cruel, de ver como a vida funciona.

Considerando-se que você é ator de TV, cinema e teatro, escritor, apreciador de vinhos, pai, marido e até devoto de Santo Antônio, onde arruma tempo (e inspiração) para fazer poesias?
Calloni: Faltou dizer que sou datilógrafo e cunicultor diplomado, ex-aluno da USP, pescador amador, fanático por Star Wars e freqüentador relativamente assíduo de sessões maravilhosas de psicanálise. Não falta inspiração para quem está permeável à vida. E isso, infelizmente, não é tão simples quanto parece. O Tempo, como todos nós sabemos, é um orixá poderoso. Se a gente for legal com Ele, Ele pode ser legal com a gente.

É fã de algum poeta em particular? Há algum poeta ou estilo que o influencie em seus escritos?
Calloni: Os Manoéis. O Bandeira e o de Barros. Na "Redação infantil sobre a comida de alguns poetas", além de fazer uma clara homenagem à poesia e aos poetas, eu insinuo a influência que alguns desses mestres e suas obras exercem na minha escrita. Graças ao bom Deus, eu sou um sujeito altamente influenciável: acredito em Deus, na sua invenção, no ET de Varginha, no meu analista, em mim, e, principalmente na vida.

Muitos nomes de livros de poesias são a repetição do nome de uma poesia que se destaca na obra ou de um trecho. No caso do seu livro, de onde vem o nome? Há relação com a parte V, chamada "A mulher e o trem" ou com a poesia intitulada "O trem", ou a razão é outra?
Calloni: Não vejo uma unidade clara no livro. Acho que isso é um problema altamente saudável. ...poesia estilhaçada... (frase do poema "Mulher de todo tempo"). Uma imagem vista de um trem em movimento, para mim, tem uma relação direta e didática com a vida; sem unidade, cheia de surpresas, maravilhas e sustos. Esse livro é assim, acho que vem daí o título.

As 32 poesias que compõem o livro estão divididas em cinco grupos. Qual foi o critério para essa divisão: tema, estilo ou algum outro?
Calloni: Talvez o tema, ou talvez algumas estações de trem. Em alguma parada da viagem eu devo ter percebido que o meu outono comungava com o surrealista Max Ernst por alguma razão que só a poesia explica. Juntei com uma primavera minha distante prima de um urubu e escrevinhei outra coisa... Depois veio meu verão da bunda grande, meu inverno de Mariana, e assim eu formei o grupo quatro estações. Isso talvez seja um critério.

O que os fãs do ator Antonio Calloni podem esperar do poeta Antonio Calloni?
Calloni: Tudo! Paixão, procura, provocação, amor, humor, alguma sombra, um calor dos diabos e o melhor afago do melhor Deus.

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