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NÃO EXISTEM DESCULPAS PARA NÃO SEGUIR EM FRENTE

Chega às livrarias Queria brincar de mudar meu destino, que conta a história de Gilvã Mendes, deficiente físico da periferia de Salvador que virou escritor

Um rapaz pobre, negro, paraplégico, com muitos irmãos, pais com constantes problemas financeiros e amorosos e sem sequer ter acesso à escola. Muita gente consideraria a soma desses fatores como obstáculo intransponível para o sucesso. Mas não Gilvã Mendes. Assim como seus ídolos Martin Luther King e Machado de Assis, que venceram na vida apesar de inúmeras adversidades, Gilvã superou todas as improbabilidades que a vida lhe pôs na frente e conta sua trajetória em seu primeiro livro, lançado pela Papirus Editora, Queria brincar de mudar meu destino.

Os intuitos da obra, segundo o autor, são três. "Meu primeiro objetivo é dar início a uma carreira literária duradora, com que tanto sonhei (desde a infância), e continuo sonhando, pois não vejo a minha vida sem a literatura. Meu segundo objetivo é fazer com que as pessoas vejam que não existem desculpas para não seguir em frente em busca do seu sonho, pois o único obstáculo capaz de impedir que este se realize é a morte. E o terceiro e último objetivo é que espero ganhar uma boa grana com ele", brinca. Com muito humor, o menino nascido em Salvador conta sua história desde quando era criança, sua vida com os outros quatro irmãos, a vontade de aprender e os desafios para conseguir estudar sendo paraplégico e sem recursos. Sem encontrar vagas em escolas e ávido por aprender a ler, o autor descobriu as letras e formou as primeiras frases com a ajuda de gibis. Ele descreve de maneira tocante a alegria de escrever seus primeiros textos. Há ainda espaço para falar do seu primeiro amor e de todas as barreiras que venceu para chegar onde está hoje. A obra é recheada de detalhes e pontuada com poesias do próprio autor.

Quando questionado sobre a parte mais marcante do livro, Gilvã tem dificuldades para selecionar uma. "Escolher uma história da minha História é como ter que escolher o filho mais dileto entre muitos, mas tudo bem. Gosto muito da parte em que meu pai está me trazendo de volta para casa, depois de eu ser 'expulso' de uma escola, quando falo que não desistiria de estudar. Ah, mas não posso me esquecer da história da carta para Papai Noel. Até hoje, quando leio tal capítulo, os meus olhos se enchem de lágrimas. Acho que no fundo esse capítulo tem uma ponta de bom humor emocionante, típico dos brasileiros", lembra.

Foram cerca de quatro anos de trabalho duro para Gilvã, que digitou seu livro com apenas uma mão. Mas a principal causa dessa demora foram as constantes panes em seu computador, que o fez perder toda a obra certa vez. Mas apesar de todas as dificuldades, o trabalho valeu a pena. "Foi uma experiência simplesmente memorável, foi uma sensação singular, de extrema liberdade, quando eu escrevia o livro quase nem lembrava que sou um cadeirante, me sentia um passarinho", conta o jovem.

Ao tomar conhecimento do desejo do jovem, o jornalista Gilberto Dimenstein, que o conheceu por intermédio da ONG Cipó de Salvador, apresentou o projeto à Papirus Editora, além, é claro, de dar dicas valiosas para ele. "Orientei-o sobre como ele poderia fazer a narrativa desse olhar, de um estrangeiro em sua própria terra, de alguém que desenha sua vida na palavra", lembra o jornalista. Gilvã hoje cursa o primeiro ano da Faculdade de Letras, em Salvador.

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