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Entre sem bater, bata sem sair: A biblioteca no porão


Jornalista Eustáquio Gomes lança livro de crônicas pela Papirus 7 Mares



Um velho cronista, precisando de um quarto livre para abrigar o avô, se muda para o porão de sua casa e leva junto o que tem de mais precioso: a biblioteca. Lá, ele se dedica a registrar suas impressões sobre o mundo que o cerca e sobre os livros que lê. Assim começa A biblioteca no porão: Livros, autores e outros seres imaginários, obra do jornalista Eustáquio Gomes, lançada pela Papirus 7 Mares. São, ao todo, 44 crônicas - escolhidas entre mais de 100 - sobre livros, autores e o que Eustáquio chama de "outros seres imaginários", organizadas de forma que possam ser lidas como uma narrativa. "Não são resenhas críticas ou comentários sobre o assunto, mas sim histórias, em geral bem-humoradas a respeito do tema", explica o autor. "Para o cronista (narrador), o porão 'é o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas', como escreveu o filósofo francês Gaston Bachelard. Na entrada, afixa um aviso: 'Entre sem bater. Bata sem sair'", conta Eustáquio Gomes.

Dentro e fora do porão, o narrador se depara com um mundo maravilhoso, e tudo se transforma: seu jardim se torna um bosque; os gatos formam um rebanho; do aparelho de som saltam metais de Brahms e a viola de Almir Sater; os visitantes (filhos, esposa, avô, inquilino) são possíveis temas para suas crônicas, e os vários livros e autores, sua inspiração maior - de Graciliano Ramos a Kafka, muitos escritores são citados, lembrados e reverenciados. Segundo o autor, A biblioteca no porão: Livros, autores e outros seres imaginários é, de alguma forma, uma biografia de sua relação com os livros. "Procuro ler só aquilo que me interessa, que tem a ver comigo, embora nem sempre isso seja possível. Portanto, esse livro foi escrito com alma, com prazer genuíno. Espero que esse sentimento se transmita aos leitores", explica o jornalista, para quem a leitura é tão importante quanto o sono e as refeições.

"Foi a leitura que me permitiu sair da roça, lá em Minas Gerais, e estudar em colégios internos sem pagar um centavo. Da leitura passei à escrita, e foi a escrita que me forneceu a ferramenta para ganhar a vida por meio do jornalismo", lembra. O público-alvo da obra é bastante amplo - na opinião do autor, é um livro para todos, do adolescente ao adulto. "A única condição é que seja leitor e ame os livros. Mas pensei, ao preparar a coletânea, que ela poderia ter um lugar especial no coração de professores e estudantes. A crônica sente-se bem no ambiente das escolas que gostam de cultivá-la", expõe Eustáquio.

TRECHO

"Tomado de repentina animação, consagro o sábado à arrumação das prateleiras. Descubro que o porão é mais espaçoso que o pequeno aposento que ocupava antes, e que agora é habitado por Vovô. Antes os livros ameaçavam sair porta afora, a ponto de ser preciso arranjá-los em fila dupla. Não havia estantes para todos. O resultado foi que os livros colocados atrás há muito não viam a luz do dia; e os da frente se ressentiam dos companheiros resfolegando em sua nuca. Retirar aqueles de onde estavam significava remover a fila da frente, operação não muito diferente de um ato de demolição. Para não ter de fazê-lo, eu passava meses sem ver a turma da retaguarda; e os da vanguarda já iam me cansando."

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