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JUL/2008 - HISTÓRIAS DO PRESENTE


Por Cássio Starling Carlos
Folha Ilustrada on-line
(22/07/2008)

Em vez do efeito de panacéia universal que os papas do neoliberalismo difundiram, a globalização trouxe um punhado de vantagens acompanhado de um tanto talvez maior de problemas. Para os cinéfilos, contudo, a superação de barreiras culturais a partir dos anos 90 propiciou a circulação inaudita de filmes e, em particular, de cinematografias raramente conhecidas até aquele momento ou simplesmente ignoradas.

Uma espécie de balanço da produção cinematográfica de culturas que aprendemos a conhecer nas duas últimas décadas é o que oferece o livro Cinema Mundial Contemporâneo, que acaba de ser lançado pela editora Papirus. Organizada pelos professores Fernando Mascarello e Mauro Baptista, a publicação reúne 21 autores que assinam 18 textos, cada um voltado exclusivamente para uma cinematografia ou para aspectos de uma produção nacional mais complexa (como é o caso da norte-americana, que recebe dois olhares, uma voltada para os independentes, outra, para o sistema industrial) ou de maior interesse para o leitor ao qual se dirige a obra (como os dois textos que examinam a produção brasileira, a de ficção e a de documentários).

Em vez da abordagem inevitavelmente atomizada que conseguimos produzir na imprensa escrita, Cinema Mundial Contemporâneo oferece recortes mais vantajosos. O primeiro é a visão de conjunto, que permite abarcar desde o estado das coisas em cinco países europeus (França, Inglaterra, Itália, Espanha e Dinamarca) até a pluralidade e a singularidade do cinema produzido em países africanos.

Outro é integrar a este exame uma abordagem histórica e analítica que tem como ponto de vista o presente. Desta forma, os textos iluminam filmes aos quais passamos a ter acesso num passado bastante recente. Mas a maior das vantagens é ajudar a entender a emergência de algumas cinematografias, como a argentina e a sul-coreana, ao explicitar efeitos de políticas voltadas para o estímulo que priorizaram a trinca produção/distribuição/exibição (caso da Coréia do Sul) ou a reação a uma crise histórica associada a outros fatores (caso da Argentina).

Outra boa escolha editorial da obra é não se intimidar diante do efeito panorâmico que seu índice pode sugerir. Os autores de cada capítulo souberam evitar o mero registro sucessivo de obras e títulos relevantes e, ainda mais, o irritante efeito de transcrição estatística, que tornaria o assunto tão árido quanto tabelas do IBGE.

Em vez da opção de um compêndio focalizado em principais autores, a ênfase deslocou-se com mais freqüência para as condições de realização, substrato que relativiza a proeminência que continua sendo dada, de modo anacrônico ou não, por intérpretes, críticos e consumidores, aos efeitos de assinatura. Desse modo, cinema deixa de ser entendido como artesanato de feitura caríssima e ganha significado de operação simultaneamente comercial e cultural.

Por não sucumbir ao peso do estritamente estético, arejando o conceito de cinema/audiovisual por todas as portas que o condicionam (econômicas, sociais, históricas, culturais), Cinema Mundial Contemporâneo” é leitura essencial para quem, além de ver, gostaria de entender em profundidade o que lhe é oferecido.


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