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MAR/2009 - CAETANO, GIL, NIZAN E O "ALEIJADO" BAIANO

30/03/2009 - Folha de S. Paulo

No bairro em que mora em Salvador "um local tomado pela pobreza e cada vez mais contaminado pelo tráfico de drogas", Gilvã Mendes só é chamado de "aleijado". Não chegam nem perto de uso de expressões descarregadas de preconceito como portador de deficiência ou pessoa com deficiência. A violência semântica é apenas um ínfimo detalhe na galeria de violências enfrentadas por Gilvã.

Ele é síntese de quase todas as marginalidades. Negro, nordestino, pobre, cadeirante, vítima de paralisia cerebral - seus movimentos do corpo e da fala foram afetados, mas não sua inteligência. Por muito tempo, não foi aceito na escola; aos 17 anos, estava na quinta série de uma escola pública.

Trancado em casa, sem ter para onde ir, agarrou-se aos livros e, em especial, ao prazer de escrever poesias. Passou esses últimos seis anos de sua vida com o projeto de contar o que significa querer ser escritor e enfrentar todas as marginalidades - entre as quais ser um cadeirante em uma cidade cheia de ladeiras ou não ser aceito por uma escola. Ou não poder mover direito os dedos e ter difícil acesso a um computador.

Não me lembro de ter lido nada tão tocante de um estudante sobre o prazer da escrita e da leitura. Esse é um daqueles raríssimos casos de talentos que se salvam, apesar das dificuldades. É apenas mais uma prova de que a perda diária de talentos é o nosso maior e mais caro desperdício.

Não é fácil nutrir talentos. Veja alguns dos mais famosos conterrâneos de Gilvã, como Caetano, Gil, Nizan Guanaes, João Ubaldo, Maria Bethânia. Se tivessem nascido em famílias muito pobres, não teriam ido longe. Aliás, todos tiveram que viver em cidades como Rio e São Paulo para desenvolver suas potencialidades.

O que vale para Salvador vale para o Brasil: a falta de possibilidades educacionais nos faz uma nação aleijada. Por isso, o relato de Gilvã entra na galeria de relatos de nossos sobreviventes de guerra.

Coloquei no meu site (www.dimenstein.com.br) alguns trechos do livro Queria brincar de mudar meu destino, ainda inédito.


Gilberto Dimenstein, 52, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.
E-mail: palavradoleitor@uol.com.br


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